Michael Guerrieri: Um Chef Nada Convencional
Por V. Oliveira

Um cheirinho de Nápoles, um toque de Long Island, uma boa pitada de Manhattan – cubra com a quantidade certa de Lisboa e tem Guerrieri, um chef dinâmico e optimista que não tem medo de reinventar sabores tradicionais com adaptações despretensiosas baseadas em paladares familiares e confortantes.

O modo de vida em Ottaviano, Nápoles, nada tinha que ver com o de Long Island. O que é que ser italiano queria realmente dizer? De dia a sua vida era passada entre pais italianos que acreditavam que “o lugar do cão é no quintal”, e à noite, “de fato e gravata” em jantares no Club 21 e no Mortimer’s em Manhattan.

Sempre influenciado pelos aromas da cozinha de sua mãe, o seu primeiro encontro com a indústria culinária aconteceu aos 14 anos, quando começou a trabalhar no Dante’s, uma pizzeria em Long Island. Aí recebeu uma formação prática da chef/dona Maria Rotta, uma uruguaia vibrante de forte personalidade, determinada a ensinar-lhe tudo o que sabia sobre como operar uma cozinha. Apesar de lavar, limpar, cortar, preparar os alimentos e ainda trabalhar com as caixas registadoras, Guerrieri ficou completamente apaixonado pela energia dentro da cozinha. “Adorava vê-la a fechar a porta do fogão com um pé, ao mesmo tempo que com as mão preparava um prato.” Apercebeu-se desde logo que aquele era um lugar onde todos os sentidos se conjugavam, bem despertos – comunicação, cheiro, paladar, toque e visão eram os ingredientes fundamentais para futuros ambientes de trabalho.
 
Enquanto frequentava a Bethpage High School, em Long Island, Guerrieri decidiu explorar um pouco mais a cultura americana. Entre os 16 e os 20 anos, seguindo as melodias da guitarra de Jerry Garcia, da banda Grateful Dead, conseguiu, quer de avião quer à boleia, visitar quase todos os 50 Estados. “O meu trabalho nunca ficou em risco, porque Maria dava-me sempre o tempo de que precisava para viajar. Ela acreditava que viajar com um espírito aberto era tão importante como a universidade, e tinha toda a razão. Enquanto a maioria dos “dead heads” vendia t-shirts tingidas, ele conseguia ir arranjando part-times em restaurantes, tanto em cozinhas como em salas de jantar – aumentando aos poucos a sua perícia na arte da culinária sem a pressão das obrigações escolares.

Aos 22 anos, estabeleceu-se como um jovem restaurador com a abertura do Mannino’s, a paragem preferida de quem passava a caminho do Hampton’s. Além de gerir um restaurante movimentado, decidiu expandir as suas experiências culinárias montando uma empresa de catering chamada Michael's Elegant Affairs. Em pouco tempo, com a ajuda de alguns amigos, estava a servir refeições criativas para a alta sociedade de Nova Iorque, celebridades e indústria musical. “Era uma receita simples – trabalho com qualidade, originalidade e sempre uma conversa honesta.”

Em 1996 visitou Portugal, de férias, e ficou completamente cativado pelo género de vida que o país lhe transmitiu. Ao conhecer novos ingredientes, sabores, vinhos e a maior parte dos prazeres e hábitos dos locais, pareceu-lhe evidente que era a altura de fazer uma mudança, da “fast life” para uma vida mais mediterrânica. Como a filosofia portuguesa em termos de comida e estilo de vida era semelhante à das suas raízes napolitanas – foi fácil para Michael adaptar-se e chamar a Lisboa a sua terceira casa. “Para mim – fazer parte de um lugar novo e participar na sua cultura quotidiana – é uma experiência enriquecedora que se deve sempre ter em conta.”

Viver e trabalhar em Lisboa abriu muitas portas a este chef gourmet. Proprietário de restaurantes distintos, Mezzaluna e La Brus’’ketta, Guerrieri prepara combinações gastronómicas que reflectem os seus talentos artísticos. O seu mais recente desafio é a criação de sandwiches gourmet personalizadas e a um preço acessível, para quem não tem tempo para comer de garfo e faca. “Gourmet não implica necessariamente um prato quente. Está na altura de termos uma slow sandwiche! Sem maionese, sem miolo, sem molhos gordurosos, nem restos de frango empastados!” O objectivo principal era agarrar alguns dos mais clássicos e tradicionais ingredientes portugueses sem sacrificar os seus sabores originais. A primeira City Sandwich abriu em Outubro de 2005 e tem vindo a obter uma resposta positiva do público. Críticas com “textos deliciosos” e clientes satisfeitos fizeram com que Guerrieri quisesse levar mais longe este conceito.

Inspirado em experiências culturais únicas, descobertas pessoais e a capacidade de absorver aquela colherzinha de informação extra, Guerrieri permite-se olhar para a comida como uma linguagem universal que transcende todas as barreiras, sociais e culturais.
 

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